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O Caçador de Pipas

18 jan 2008

written by Memória Cinematográfica

Nunca é tarefa fácil transformar em filme, um best-seller que durante muito tempo (e até hoje) figura entre os mais vendidos. “O Código da Vinci”, de Dan Brown, por exemplo, ganhou as telas em 2005 nas mãos de Ron Howard e foi um tiro no pé, pois não teve bilheteria a contento e a crítica saiu falando mal. Com razão, é verdade.

Desta vez, a empreitada é com o romance de Khaled Hosseini: “O Caçador de Pipas” (“The Kite Runner”), que estréia sexta-feira, dia 18. Pode ser que a opinião seja bastante dividida, pois não é todo amante da literatura que assiste, impassível, aos cortes previstos em roteiros. E eles são inevitáveis, uma vez que não é tarefa fácil condensar uma história de mais de 400 páginas em duas horas de projeção.

A verdade é que o longa é fiel ao livro no qual é baseado. Com roteiro escrito por David Benioff, o filme consegue mostrar na tela as belezas descritas por Hosseini, nas linhas. E as imagens, sob a batuta de Marc Forster, ganharam contrastes que mostram a Cabul dos anos 1970 e dos anos 2000, depois da tomada pelo Talibã. Forster, dos ótimos “Em Busca da Terra do Nunca” e “Mais Estranho que a Ficção”, conseguiu coordenar a equipe e o elenco, que tem atores afegãos.

A narrativa versa sobre Amir (Zekiria Ebrahimi quando jovem, e Khalid Abdalla quando adulto) e Hassan (Ahmad Khan Mahmoodzada), que moram juntos e são amigos inseparáveis. Amir, porém, é filho do dono da casa, Baba (Homayoun Ershadi), enquanto Hassan é filho de Ali (Nabi Tanha), o seu empregado. O que une os dois garotos é a paixão pela pipa: um empina e o outro sai atrás para pegar as que foram cortadas. Hassan também admira as histórias que Amir lhe conta, já que não sabe ler. No entanto, com os rumos do destino, os dois são separados para sempre.

É a partir de um telefonema de Rahim Khan (Shaun Toub) no início do filme, que Amir, com mais de 30 anos e morando em São Francisco, nos Estados Unidos, se vê “obrigado” a voltar a Cabul, no Afeganistão pois, como disse seu amigo, “há um meio de ser bom de novo”.

As imagens do filme mostram Cabul, em 1978, quando os amigos são inseparáveis, passeiam pela cidade, sentam-se embaixo do pé de romã no alto da colina para ler.

O elenco, composto por atores afegãos, foi encontrado a partir de pesquisa realizada naquele país pela recrutadora Kate Dowd, que teve dificuldade com as crianças que não possuíam certidão de nascimento, tampouco passaporte, uma vez que as filmagens foram realizadas na China. O longa traz também ao elenco Atossa Leoni, como Soraya, Abdul Qadir Farookh, no papel do General Taheri e Abdul Salam Yusoufzai como Assef.

O menino Ahmad Khan Mahmoodzada tem doçura no olhar e encabeça as interpretações mais pulsantes da trama. Já Khalid Abdalla, que faz Amir adulto e fez também “Vôo United 93”, teve de aprender a falar dari, idioma escolhido para os diálogos (além do inglês, em cenas que se passam em São Francisco), e consegue dar ao personagem a noção de que tudo o que aconteceu em sua vida é movido a culpa, amizade, perdão, perda, reparação.

Emocionante do início ao fim, o longa de Forster não faz feio. Ao contrário: faz um filme delicado como o livro e consegue condensar a história não-linear na tela. No entanto, como tem um ritmo que não pára e a música árabe acompanha, alguns podem achar, pejorativamente, que trata-se de um “cinemão americano”.

É capaz também que os amantes da literatura sintam falta de algumas cenas, mas o que está lá é fiel (com exceção de um detalhe ou outro, cuja alteração não ofende). Outro detalhe negativo é que, no livro, a trama é contada por Amir em primeira pessoa, de modo que o leitor se aproxima do personagem. Já no filme, como o recurso da narração em off não é utilizado, o espectador pode ficar dividido sobre a quem se apegar: se a Amir, a Hassan ou ao Afeganistão de um modo geral.

 


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