Memória Cinematográfica

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Ponto Final – Match Point

tatianna Woody Allen 16 fevereiro 2006

Woody Allen é um dos poucos diretores do cinema que se superam a cada longa-metragem. Depois de fazer sucesso, ganhar Oscar (Allen foi indicado seis vezes como Melhor Diretor, ganhou com “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”), sempre vem aquela sensação que “melhor impossível”.

Sua nova obra, “Ponto Final – Match Point” (“Match Point”), estréia desta sexta, dia 17 de fevereiro, é mais uma de sua autoria (roteiro e direção) que merece destaque. Trata-se de um drama sobre a ascendência e as consequências da ambição de um irlandês na alta sociedade inglesa.

Desta vez, Woody Allen trocou sua Nova York por Londres como pano de fundo para a trama. Chris (o irlandês Jonathan Rhys Meyers), um jovem professor de tênis (que largou a carreira como jogador porque achava que não teria chance de ficar entre os principais), começa a dar aulas a Tom Hewett (Matthew Goode), um moço da alta roda londrina que imediatamente se interessa pelo gosto de seu professor. Quando detectado que ambos são atraídos pela ópera, uma amizade nasce.

A partir do convite de Tom, Chris conhece a sua irmã Chloe Hewett Wilton (Emily Mortimer). Os dois começam a namorar, mas é para a sensual e aspirante a atriz, a americana Nola Rice (Scarlett Johansson), que Chris tem olhos. O empecilho é que Nola vai se casar com Tom.

Se um lado há uma moça filha de pais ricos, do outro há uma atriz em começo de carreira que não consegue passar em nenhum teste para ser admitida. O pai é sempre generoso, enquanto a mãe faz o estilo cautelosa, principalmente sobre o futuro dos filhos. Para Tom, ela tem uma candidata a noiva, uma moça inglesa, é claro.

No início da fita, as intenções de Chris não são claras. Cheio de formalidades, como os britânicos costumam fazer, aparentemente ele gosta de Chloe, casa-se com ela, começa a trabalhar nas empresas do sogro e obtém bons resultados (inclusive a confiança do pai de sua esposa). O que as cenas mostram, porém, é que Chris faz o que for preciso para ficar no mesmo local onde está Nola. Em uma certa ocasião eles vão ao cinema assistir ao filme “Diários de Motocicleta”, dirigido pelo brasileiro Walter Salles (mais um merchandising).

Ao desenrolar da trama, Chris se vê dividido entre a esposa e a amante, não sabe como lidar com essa dualidade, e toma uma atitude drástica. A discussão é que não se pode ter tudo o que se quer. Se é luxúria de ter uma amante que passa a lhe cobrar como se fosse esposa, se é o novo estilo de vida que Chris se acostumou (afinal de contas a conta bancária engordou, o apartamento com vista para o Big Ben não é para qualquer súdito). Além do Big Bem, cartão-postal da cidade, aparecem também entre as locações o museu Tate Modern, o St. Jarmes’ Park.

O que se tem também é uma discussão sobre sorte. Afinal, um jogo de tênis também pode ser enquadrado desta forma.

“As pessoas temem admitir que uma imensa parte da vida depende da sorte. É assustador pensar que há tanto fora de nosso controle. Num jogo, há momentos em que a bola bate no alto da rede e, por uma fração de segundo, ela tanto pode seguir à frente, ou cair de volta. Com um pouquinho de sorte, ela vai em frente e você ganha. Ou talvez não, e você perde.”

Com uma guinada, o filme surpreende o espectador e o suspense hitchcockiano toma conta. Woody Allen, que concorre ao Oscar de Melhor Roteiro Original, prova, mais uma vez, que sabe o que faz. Os takes da filmagem, como ele faz quando a chuva está do lado de fora da janela, ou uma discussão no quarto de Nola contra o espelho, mostram que é possível ver a mesma história por ângulos diferentes.

Outro ponto é o fato de Woody privilegiar os planos e diálogos longos, a movimentação da câmara, em detrimento de vários cortes, planos e contra-planos. Obras-primas assim são difíceis de serem conseguidas. Coisas de gênio.

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