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Olga

20 ago 2004

written by Memória Cinematográfica

Ela lutou pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Olga Benario Prestes, uma judia alemã vítima da intolerância do governo de Getúlio Vargas, casada com o militante comunista brasileiro Luis Carlos Prestes, é a personagem principal do livro “Olga”, escrito pelo jornalista Fernando Morais, em 1985. Sexta, dia 20, estréia o primeiro longa-metragem do diretor Jayme Monjardim, justamente inspirado no livro de Morais.

“Ouvia meu pai falar sobre o Getúlio ter mandado a mulher do Prestes grávida para a Alemanha. Eu não tinha muita noção do que era ser comunista e quando me tornei jornalista comecei a fazer pesquisas. Estava desistindo, porque não tinha muita coisa sobre ela”, declara Fernando Morais, durante entrevista coletiva concedida à imprensa nesta semana, após exibição do filme aos jornalistas. “Só descobri nas duas Alemanhas que Olga era um grande personagem.”

Para transformar a obra em um longa, a equipe novata, principalmente no que diz respeito à atriz principal, à direção e à grande parte de diretores, contou com orçamento de R$ 12 milhões, captado somente no Brasil. O grande desafio, porém, era condensar toda a história do livro, rica em detalhes, em duas horas e quinze minutos no cinema.

“O livro é uma pesquisa histórica muito importante, um livro muito forte e que me emocionou muito”, diz a roteirista e produtora Rita Buzzar.

“A primeira coisa foi centrar na sua trajetória, condensar e ser concisa nela, a partir da credibilidade do amor. O amor dos dois é real, não inventamos. Para as pessoas acreditarem nele, era preciso entender o contexto do casal”, completa ela.

A história toda se passa em três locais: Alemanha, Rússia e Rio de Janeiro. Para recriar os cenários sem sair do país foi escolhido um filme de tom monocromático.

“Tivemos dificuldade de locação por conta do clima, não poderia ter raios de luz, e assim conseguimos o tom europeu à fotografia e cada arquitetura tinha que caracterizar cada país. Acho que conseguimos bons resultados na arte e em nenhum momento duvidamos que estamos nesses países”, aponta o diretor Jayme Monjardim.

A diretora da arte, Tiza de Oliveira, diz que criou grandes espaços para caracterizar a Rússia, enquanto prédios no Rio construídos por alemães deram o tom que precisaram.

“Quando o Jayme foi à Alemanha, ele sentiu que o campo de concentração não podia ser construído em barracões, porque ele seria muito árido e precisávamos de uma vida. Ele teve a idéia de procurarmos uma fábrica e lá dentro fazer o campo de concentração”, afirma Tiza.

Depois de muito tempo trabalhando com televisão, o diretor, conseguindo patrocínio para realizar um filme, não hesitou. “Em nenhum momento eu tive vontade de mudar a minha característica de contar história. Eu fico muito orgulhoso de ter uma cara de TV, se for o caso.”

Para contar a história, foi preciso arranjar um elenco que incorporasse os personagens de verdade. Como existiam poucas fotos de Olga, Monjardim afirma que era preciso ter alguém com olhos marcantes, uma das características nítidas de Benario. “A Camila (Morgado) se encaixou em tudo. O Caco (Ciocler) foi mais difícil, porque ele não se deixa ver sem barba e bigode”, admite o diretor.

Para viver Olga no cinema, a atriz Camila Morgado precisou passar por vários processos. O primeiro seria o de desconstrução de seu último personagem na televisão, a Manuela, da minissérie “A Casa das Sete Mulheres”. Em seguida, foi a vez de ela começar a se caracterizar e se preparar para encarar a alemã.

“Comecei o treinamento físico, fiz treinamento militar para entender como era a vida de um soldado, aula de tiro e de defesa pessoal”, conta Camila, que emagreceu sete quilos e ainda raspou os cabelos.

Depois, era preciso formar a parte intelectual do personagem. “Eu já tinha lido o livro há muito tempo. Reli a obra e achei que o personagem ia me desgastar psicologicamente. Comecei a observar Olga e a ler tudo o que tinha da época. As coisas começam a ficar claras quando a parte física se encaixa na parte intelectual.” E isso, Camila Morgado conseguiu fazer com folga.

Já Caco Ciocler, o ator que faz o papel de Luis Carlos Prestes, segundo Fernando Morais, ficou a cara do comunista. “Não sei como fiz para ficar tão parecido. Estudei muito sobre ele, vi documentários, olhei fotos. Quando fiz a maquiagem, o Jayme me viu e ficou emocionado. Foi uma surpresa pra todo mundo”, conta Ciocler, lembrado por Morais inclusive a questão da altura, que foi solucionada, uma vez que Prestes media 1m59.

Para fazer Getúlio Vargas, o ator Osmar Prado foi selecionado. “Acho que é cármica a escolha”, brinca Osmar. Ele disse que não é a primeira vez que empresta a sua experiência como ator para viver o ditador (fez um ensaio no teatro e já foi convidado duas outras vezes, mas acabou não dando certo).

“Meu primeiro contato com o Getúlio foi no dia da sua morte e me lembro da minha tia contando para a minha mãe.”

Anita Prestes, filha de Olga com Luis Carlos, ainda é viva e mora no Rio de Janeiro juntamente com sua tia Lígia. Tanto para o livro como para o longa a participação das duas não influenciou muito, uma vez que Anita não conheceu a mãe.

No entanto, a participação de ambas foi de fundamental importância no sentido emocional da história. “O elenco foi visitá-las e ambas gostaram do filme”, diz Rita, comentando sobre os familiares, que são muito discretos.

No contexto histórico, 2004 marca os 50 anos da morte do ditador Getúlio Vargas, bem como os 20 anos das Diretas Já. “A gente não marcou para o filme sair este ano (o filme demorou sete anos para ficar pronto). Ele fala de intolerância, uma coisa muito comum em todas as épocas; mas fala também de sonho de felicidade. Se fosse há cinco anos, ninguém queria ouvir falar da história de uma comunista. Esta é uma oportunidade de conhecer a história do país”, completa Rita.

Fernando Morais, como autor da obra, leu a primeira versão dos roteiros e já gostou. “Acho que Rita conseguiu o prodígio de manter o lado romântico do personagem sem desfigurar a história, o que é muito comum em adaptação para facilitar a fusão de núcleos. Acho que é um roteiro extremamente fiel. Do meu ponto de vista não tenho nenhum reparo a fazer, acho que não poderia ter sido feito melhor.”

Com muitos detalhes, o livro, que não passa de uma grande reportagem, conforme definiu o seu autor, talvez chocasse demais o espectador. As cenas mais fortes e mais emocionantes são aquelas quase sempre quando envolvem a Anita, desde o parto na prisão na Alemanha, até a retirada da criança dos braços da mãe. “É quando Olga explode. Foi a cena mais complicada porque tinha a criança”, confirma a atriz.

Rita, como roteirista, não quis abusar muito da dramaticidade. “Não é justo com o espectador”, justifica.

Uma das cenas que mais emocionaram Caco foi quando um preconceito o bateu pessoalmente. Caco Ciocler, um judeu, se tocou quando, no filme, o comandante do navio questionou se Olga era judia. “Eu não era judeu no filme. A pergunta era pra ela e eu tive que disfarçar e fazer de conta que aquela pergunta não me incomodasse. Engraçado como Olga consegue me emocionar como nunca tinha me emocionado por este motivo”, finalizou o ator, que aprendeu também, com o filme, a resgatar sentimentos antes esquecidos em sua personalidade, como a pureza do ser humano e o amor genuíno. Luis Carlos Prestes, muito ligado ao movimento comunista, foi virgem até os 37 anos de idade. O deslumbramento com que Caco olha Camila no filme realmente revela este sentimento.

Olga resgata a trajetória da mulher na luta por um mundo melhor

A trajetória de Olga Benario, da infância burguesa à morte em uma câmara de gás, é tema do primeiro longa-metragem do diretor Jayme Monjardim, inspirado no livro homônimo de Fernando Morais, que estréia nesta sexta, dia 20.

A atriz Camila Morgado vive Olga, uma judia alemã que ingressa na Juventude Comunista aos 15 anos. Enquanto recebia treinamento militar no Exército Vermelho, Olga foi designada para cuidar da segurança pessoal do capitão brasileiro Luís Carlos Prestes (Caco Ciocler) na viagem que o traria de volta ao país. Disfarçados, os dois faziam pinta de rico e acabam se apaixonando.

E é a partir do amor real que acontece todo o desenrolar da história, uma vez que aos 37 anos esta era a primeira mulher de Prestes.

Unidos pelo amor e também pelo desejo de mudar o mundo, ambos se juntam a outros membros da Internacional Comunista e organizaram uma revolução, mas foi derrotada pela polícia do governo Getúlio Vargas (Osmar Prado).

Presos, nunca mais os dois se viram. Mas Olga foi mandada aos sete meses grávida de volta à Alemanha de Hitler, “um presente de Vargas”.

A filha do casal, Anita, nasce na prisão e fica ao lado da mãe enquanto esta tiver leite para amamentá-la. Depois é criada pela avó Leocádia Prestes (Fernanda Montenegro) e pela tia Lygia Prestes (Mariana Lima).

Nunca mais Olga viu a filha, a família ou o marido. Apenas trocaram cartas. Quando estava em um campo de concentração, Olga foi enviada para a câmara de gás e morta em 1942.


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