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O Artista

09 fev 2012

written by Memória Cinematográfica

Os últimos lançamentos no cinema têm mostrado uma característica muito importante e bastante simples. O cinema está com saudades do cinema. Saudades da arte, do conteúdo versus espetáculo. A questão é que os filmes podem ser produzidos da maneira que o produtor e o cineasta quiserem, mas este ano os filmes estão sendo reconhecidos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e já foram premiados pelo Globo de Ouro e pelo Festival de Cannes.

A pergunta, agora, é se o público que frequenta os cinemas e está acostumado aos grandes espetáculos está preparado para assistir a um filme preto e branco e silencioso, em 2012, ano em que “Star Wars” (ícone dos efeitos especiais) volta à cena com o incremento 3D, e depois de “Avatar” ter superado todas as bilheterias e as técnicas (independentemente da história)?

“O Artista” (“The Artist”), longa-metragem que estreia nesta sexta-feira, 10, nos cinemas, é um desses casos. Outra homenagem é feita por Martin Scorsese no longa “A Invenção de Hugo Cabret”, que chega na semana que vem, e trata sobre o cinema de Georges Méliès.

Voltando à estreia desta semana… A produção, embora francesa, fala sobre Hollywood a partir de 1927, quando o cinema era feito por grandes atores e atrizes que tinham de se virar para se fazer entender. E aproveitavam o talento do sapateado (à la Fred Astaire e Ginger Rogers) para deixar o espetáculo ainda mais bonito, já que, em muitas projeções, a música era apresentada ao vivo. Doces lembranças…

Mas daí o cinema de Hollywood entrou em crise. Veio a Quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, e o longa-metragem “O Cantor de Jazz” foi o primeiro que conseguiu sincronizar o som e a imagem na fita. Sendo assim, além da falta de dinheiro da indústria, os artistas que faziam sucesso com a inexistência de som começaram a perder os seus empregos. Enquanto que os que tinham a voz em destaque, ganharam espaço. Na vida real, Charles Chaplin passou por essa transição e teve alguns problemas, é verdade, mas os superou muito bem. Haja vista as suas produções com diálogos, como “O Grande Ditador”.

Em “O Artista”, porém, o protagonista George Valentin (Jean Dujardin) não teve a mesma sorte. Ganhou muito dinheiro e fama com o cinema silencioso, mas viu a falta dele da pior maneira: se separou da esposa, viu uma admiradora, Peppy Miller (Bérénice Béjo), se destacar nos musicais, e vendia tudo o que tinha em leilões e brechós para produzir seus filmes que não tinham público. A crise está instalada. Seu sorriso teatral e o fato de achar que está no topo e nada pode atingi-lo vai ladeira abaixo.

Com intertítulos (tal como nos filmes de Chaplin, Eisenstein, Griffith), trilha sonora incrível e um cachorro pra lá de carismático (e que tem uma função primordial na trama), além do figurino de época, “O Artista”, dirigido por Michel Hazanavicius, revive momentos incríveis do cinema. Nada é muita novidade, é verdade, afinal “Cantando na Chuva”, um dos musicais mais aplaudidos da história do cinema, já tratou o assunto há mais de 50 anos. Mas esse saudosismo é bom, em um momento em que a forma está dizendo mais que o conteúdo.

“O Artista” remete a um período precioso, que foi o cinema silencioso, e homenageia os precursores de um dos entretenimentos mais cultuados no mundo todo, ainda que os franceses irmãos Lumière (ou será o norte-americano Edson, na eterna briga de quem é o inventor do cinema) jamais haviam imaginado.


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