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Um Sonho Possível

19 mar 2010

written by Memória Cinematográfica

Neste ano, a 82ª edição do Oscar mostrou, ao premiar “Guerra ao Terror” nas categorias de melhor filme e melhor direção, em detrimento da ficção científica “Avatar” (ambas disputavam nove estatuetas), que continua humana, ou seja, escolhendo produções que contam histórias de pessoas, ainda que de modo ficcional.

No ano passado, as pessoas puderam conferir, por exemplo, “O Solista“, cuja narrativa versa sobre um sem-teto que vive nas ruas de Los Angeles e foi descoberto por um jornalista que percebeu tratar-se de um violinista com grande talento.

Desta vez, porém, a história de “Um Sonho Possível” (“The Blind Side”), também baseada em fatos reais, fala sobre um estudante sem-teto, Michael Oher (o estreante Quinton Aaron), que comove o coração de uma milionária (Sandra Bullock) e tem a chance de ter um lar, ir bem nos estudos, até se tornar um grande jogador de futebol americano.

Pois bem. Em punho de uma história comovente por si só, o diretor e roteirista John Lee Hancock (inspirado no livro “The Blind Side: Evolution of a Game”, de Michael Lewis) aponta suas lentes para o desenvolvimento do adolescente e de seu crescimento como cidadão a partir da oportunidade que teve ao ser levado para a casa de uma mãe de dois adolescentes e estudantes na mesma escola onde foi matriculado.

Depois que começa a viver com a família, sua vida vai mudando, pois lhe é dado casa, roupa (uma vez que ele só tinha uma camiseta e uma bermuda para passar os dias frios, inclusive), além de educação e a chance de participar do time de futebol americano, já que ganha a confiança do seu treinador.

A partir de narrações em off, o espectador começa a acompanhar um jogo e, em seguida, uma cena com o garoto em um interrogatório. Corta. E a história não-linear volta no tempo para contar quem é o tal rapaz e como foi parar naquela mesa.

Essa parte sobre o futebol americano pode parecer maçante a nós, brasileiros, que pouco entendemos deste esporte. E é. No entanto, não é o foco da fita dirigida por Hancock, uma vez que o jogo é apenas uma muleta para contar uma história emocionante e envolvente sobre como o garoto se superou e a motivação que criou dentro de si e da nova família para estudar cada vez mais (inclusive tendo aulas particulares), de modo a conseguir a bolsa de estudos e poder jogar profissionalmente.

O longa-metragem, que estreia nesta sexta-feira, 19, discute a adoção, a caridade e o preconceito disso tudo, além do fundamental papel da família na construção de uma personalidade. Mas, de acordo com a personagem, cuidar de alguém que precisa faz bem para ela mesma e não apenas para quem recebe as doações. Ainda que se faça de durona ao fazer o bem, a personagem de Sandra Bullock, cujo papel lhe rendeu o Oscar de melhor atriz neste ano (e algumas críticas negativas sobre o prêmio), mostra que tem o coração mole. Dois exemplos é quando escuta do rapaz que é a primeira vez que tem uma cama – e não apenas um quarto – e quando vai se despedir, preferindo sair correndo e, assim, evitar abraços calorosos que despertariam a dor.

Ela, que trabalha com decoração e está sempre ao telefone tentando resolver os problemas de algum cliente, procura o senso prático de algumas atitudes e vê que sua família, como um todo, estava precisando desta reviravolta para dar valor. E Sandra, acostumada com os papéis em comédias românticas, mostra que sim, é boa atriz e pode interpretar uma boa samaritana – e além disso comover o espectador, pois tem uma verdade no olhar que convence.

Com cenas que se passam dentro de casa, na escola, e no bairro pobre de onde veio o garoto, justamente contrastando com a mansão de onde ele passa a viver, o longa vai fazer com que o espectador saia da sala do cinema com outros olhos após ver “Um Sonho Possível”.

Com a evolução dos personagens, aliás, é possível que se envolva à medida que as cenas vão passando em frente aos seus olhos (lacrimejados) e o faz acreditar que, sim, é possível mudar o destino de uma pessoa. Basta boa vontade, amor ao próximo e dedicação. O resultado é surpreendente.


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